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Quer homologar sua sentença
brasileira nos Estados Unidos?

Obteve uma sentença favorável no Brasil contra um devedor com bens nos Estados Unidos? O processo de homologação e execução nos EUA pode ser mais eficaz do que a execução no Brasil — mas exige planejamento cuidadoso e assessoria jurídica especializada nos dois sistemas.

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Os Estados Unidos reconhecem sentenças estrangeiras — mas o caminho tem nuances que não podem ser ignoradas.

Ao contrário do Brasil, que exige a homologação pelo STJ antes de qualquer execução, os Estados Unidos reconhecem e executam sentenças estrangeiras por meio de procedimentos estaduais. O processo em geral não envolve reexame do mérito da decisão brasileira.

O reconhecimento é regido pela Uniform Foreign-Country Money Judgments Recognition Act (UFMJRA), lei modelo adotada por cerca de 30 estados norte-americanos. Nos demais estados, aplicam-se versões estaduais próprias ou a common law, com normas que podem ser mais exigentes.

Uma vez reconhecida, a sentença brasileira pode ser executada com instrumentos disponíveis no sistema norte-americano: bloqueio de contas, penhora de salários, penhora de imóveis e até sanções por descumprimento (contempt of court).

Contudo, existem riscos concretos que devem ser avaliados caso a caso: o estado onde os bens se encontram, a forma como a citação foi realizada no Brasil, a natureza da condenação e o valor da sentença são fatores determinantes para o sucesso do processo.

Passo a passo: do trânsito em julgado no Brasil à execução nos EUA

01

Confirmar o trânsito em julgado e a natureza da condenação

A sentença brasileira precisa ser definitiva, não mais sujeita a recurso. Os tribunais norte-americanos exigirão prova de que a decisão é final and conclusive e executável no país de origem. Uma certidão de trânsito em julgado emitida pelo juízo ou tribunal competente é o documento adequado para essa finalidade.

Antes de iniciar o processo nos EUA, é igualmente essencial verificar se a sentença condena ao pagamento de quantia certa (money judgment). A UFMJRA e a maioria das leis estaduais aplicam-se exclusivamente a esse tipo de condenação.

Atenção — natureza da condenação: Sentenças que determinam obrigações de fazer ou não fazer, sentenças declaratórias e sentenças constitutivas não são reconhecidas pela UFMJRA e em geral não podem ser diretamente executadas nos EUA. Para essas hipóteses, pode ser necessário iniciar uma nova ação nos EUA com base nos fatos subjacentes à decisão brasileira — o que é um processo distinto e mais custoso.
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Identificar o estado norte-americano adequado para o pedido

Nos EUA, não há competência federal para o reconhecimento de sentenças estrangeiras. A escolha do estado deve ser baseada em onde o devedor possui bens, reside ou exerce atividade.

Atenção — a escolha do estado é crítica: Nem todos os estados adotam a lei uniforme (UFMJRA). Em estados que se baseiam na common law — como a Flórida até recentemente — o processo pode ser significativamente mais difícil, mais caro e com menor previsibilidade de resultado. Se o devedor tiver bens em mais de um estado, a escolha estratégica do foro pode definir o sucesso ou o fracasso da execução.
03

Apostilar a sentença e obter tradução certificada

A sentença brasileira deve ser apostilada nos termos da Convenção da Apostila de Haia (da qual o Brasil é signatário desde 2016) e traduzida para o inglês.

Atenção — tradução juramentada brasileira pode ser rejeitada: Tradutores juramentados registrados no Brasil não têm reconhecimento automático perante tribunais americanos. Muitos juízes exigem que a tradução seja realizada ou certificada por um tradutor credenciado nos próprios Estados Unidos, ou que a tradução brasileira passe por um processo de notarization local. Investir apenas em tradução no Brasil e levá-la diretamente ao tribunal americano é um erro frequente que pode resultar em rejeição do documento e atraso no processo.
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Verificar como a citação foi realizada no Brasil

O tribunal americano analisará se o réu foi devidamente citado no processo brasileiro. Esse é um dos pontos mais frequentemente explorados pela defesa para bloquear o reconhecimento da sentença.

Atenção — citação por edital ou por correio pode ser fatal: O padrão americano de due process para citação é substancialmente mais rigoroso do que o brasileiro. Citações realizadas por edital, por carta ou de outras formas que o juiz americano considere insuficientes para garantir que o réu teve ciência real do processo podem resultar na recusa do reconhecimento — mesmo que a citação tenha sido plenamente válida sob o direito brasileiro. Essa é, na prática, a defesa número 1 utilizada por advogados americanos para bloquear sentenças estrangeiras.
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Protocolar o pedido de reconhecimento no tribunal estadual competente

O pedido de reconhecimento da sentença estrangeira é protocolado perante o tribunal estadual do estado escolhido. O tribunal analisará se os requisitos da UFMJRA (ou das normas equivalentes de common law naquele estado) foram atendidos. O mérito da decisão brasileira não é reexaminado.

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Obter o reconhecimento e converter a sentença em título executivo local

Uma vez reconhecida, a sentença brasileira é convertida em um título executivo judicial equivalente a uma sentença proferida pelo próprio tribunal local. A partir desse momento, todas as medidas executivas disponíveis no sistema norte-americano ficam à disposição do credor.

07

Promover a execução contra os bens do devedor

Com a sentença reconhecida, inicia-se a fase de execução. Os procedimentos variam por estado, mas geralmente incluem penhora de contas bancárias (attachment), penhora de salários (wage garnishment), penhora de imóveis e outros ativos, e sanções por descumprimento de ordens judiciais (contempt of court). Esses procedimentos são em geral obtidos de forma célere, sem necessidade de intimação prévia do devedor.

O que os tribunais norte-americanos analisam

A UFMJRA estabelece os critérios para o reconhecimento de sentenças estrangeiras. As hipóteses de recusa são em tese taxativas — mas algumas delas, na prática, oferecem espaço significativo para a defesa do devedor.

Recusa obrigatória

O tribunal deverá recusar o reconhecimento se: (1) o sistema judicial brasileiro não oferecer tribunais imparciais ou processo devido; (2) o juízo brasileiro não tiver tido competência para citar o réu; ou (3) o juízo brasileiro não tiver tido competência para resolver a lide. A segunda hipótese — inadequação da citação — é a mais invocada na prática para bloquear sentenças brasileiras.

Recusa discricionária

O tribunal poderá, mas não é obrigado a, recusar o reconhecimento em casos específicos: prazo insuficiente dado ao réu para se defender; sentença obtida por fraude; violação da ordem pública local; conflito com sentença anterior já existente; ou procedimento incompatível com o devido processo legal. Meras diferenças processuais entre os dois sistemas não são suficientes — mas diferenças substanciais podem sê-lo.

Sentenças excluídas do escopo

A UFMJRA aplica-se exclusivamente a condenações ao pagamento de quantia certa (money judgments). Estão fora do escopo: sentenças tributárias, penais, de direito de família, sentenças declaratórias, e condenações a obrigações de fazer ou não fazer. Para essas hipóteses, o credor deverá avaliar se é possível ajuizar nova ação nos EUA com base nos mesmos fatos.

Reciprocidade: a questão não está encerrada

A versão de 2005 da UFMJRA eliminou formalmente o requisito de reciprocidade. No entanto, nem todos os estados adotaram essa versão. Em estados que ainda aplicam a common law ou a versão de 1962, a reciprocidade pode ser exigida.

Além disso, mesmo nos estados que adotaram a versão de 2005, um juiz pode considerar que a recusa dos tribunais brasileiros em executar certas sentenças americanas — especialmente as que envolvem punitive damages — configura violação de ordem pública suficiente para negar o reconhecimento. Esse argumento é utilizado pela defesa com frequência crescente.

Nota sobre sentenças trabalhistas: A UFMJRA é suficientemente abrangente para permitir o reconhecimento de sentenças proferidas pela Justiça do Trabalho brasileira, desde que condenem ao pagamento de quantia certa. Credores trabalhistas com devedores que possuam bens nos EUA têm, portanto, uma via de execução concreta — sujeita, porém, às mesmas cautelas quanto à forma de citação e ao estado escolhido para o pedido.
Risco prático sobre o valor da sentença: Sentenças brasileiras de danos morais tendem a ter valores significativamente inferiores aos padrões americanos. Em alguns casos, pode ser mais vantajoso utilizar a sentença brasileira como prova em uma nova ação ajuizada nos EUA — o que permite ao credor buscar indenização nos patamares do direito americano, eventualmente incluindo punitive damages — do que homologar diretamente uma sentença de valor reduzido e arcar com os custos do processo de reconhecimento. Essa decisão estratégica deve ser avaliada com assessoria jurídica antes do início do processo.

Qual versão da lei se aplica em cada estado?

A UFMJRA foi revisada em 2005. Cerca de 30 estados adotaram alguma versão da lei uniforme; os demais baseiam-se em lei estadual própria ou na common law. A escolha do estado onde o pedido será protocolado é uma das decisões mais importantes de toda a estratégia.

UFMJRA 2005

California

Adotou a versão revisada de 2005. Processo relativamente previsível.

UFMJRA 2005

Texas

Adotou a versão revisada de 2005.

UFMJRA 2005

Illinois

Adotou a versão revisada de 2005.

UFMJRA 2005

Massachusetts

Adotou a versão revisada de 2005.

UFMJRA 2005

Michigan

Adotou a versão revisada de 2005.

UFMJRA 2005

Washington

Adotou a versão revisada de 2005.

UFMJRA 2005

Delaware

Adotou a versão revisada de 2005.

Atenção — lei estadual própria

Flórida

A Flórida possui lei estadual própria (Florida Recognition of Foreign Country Money Judgments Act), não baseada na UFMJRA. As normas são similares em alguns aspectos, mas com diferenças relevantes de procedimento e interpretação. Destino frequente de brasileiros, merece avaliação específica antes do ajuizamento.

Atenção — transição legislativa

Nova York

Nova York está em processo de atualização de sua legislação. A versão de 1962 estava em vigor até recentemente e a common law local apresenta particularidades. É um dos estados mais relevantes para credores com devedores no setor financeiro, mas exige análise atualizada antes do pedido.

Se o devedor possui bens apenas em estados sem lei uniforme, o processo de reconhecimento pode ser substancialmente mais difícil, mais caro e com resultado menos previsível. Nesses casos, é fundamental obter parecer de um advogado admitido naquele estado antes de decidir pela homologação como estratégia principal.

Homologar a sentença brasileira ou ajuizar nova ação nos EUA?

Caminho A

Homologar a sentença brasileira nos EUA

O procedimento de reconhecimento pela UFMJRA é em geral mais rápido e menos custoso do que uma nova ação, pois o mérito não é reexaminado. É o caminho natural quando a sentença brasileira é robusta, o valor é relevante, a citação no Brasil foi pessoal e o devedor possui bens em um estado que adota a lei uniforme.

A principal limitação é o valor: a sentença executada será a brasileira, sem possibilidade de ampliar a condenação. Custos de reconhecimento, honorários de advogados locais e eventuais recursos do devedor também devem ser incluídos no cálculo de viabilidade.

Caminho B

Utilizar a sentença como prova em nova ação nos EUA

Em vez de homologar a sentença brasileira, o credor pode ajuizar nova ação nos EUA com base nos mesmos fatos subjacentes. Nesse caso, a sentença brasileira serve como prova e pode ter efeito persuasivo relevante — mas o processo reinicia do zero quanto ao mérito.

A vantagem é a possibilidade de buscar indenização nos parâmetros do direito americano, que frequentemente resulta em valores muito superiores — incluindo punitive damages em casos de conduta dolosa. Essa estratégia é particularmente adequada quando a sentença brasileira tem valor baixo, quando há dúvidas sobre a validade da citação, ou quando os bens do devedor estão em estados com normas desfavoráveis ao reconhecimento direto.

Como a execução funciona na prática

Penhora de contas bancárias

O attachment de contas bancárias é um dos instrumentos mais eficazes e pode ser obtido de forma expedita, frequentemente sem notificação prévia ao devedor. É especialmente útil quando o devedor possui contas em bancos norte-americanos.

Penhora de salários

O wage garnishment permite a retenção de parte do salário ou outras rendas do devedor diretamente na fonte pagadora. É um instrumento particularmente eficaz contra pessoas físicas que trabalham nos EUA.

Penhora de imóveis e ativos

Imóveis, participações societárias e outros ativos localizados nos EUA podem ser penhorados e alienados judicialmente para satisfação do crédito. A penhora de imóveis é registrada no cartório de registro local, impedindo sua transferência.

Contempt of court

O descumprimento de ordens judiciais nos EUA pode resultar em sanções severas ao devedor, incluindo multas diárias e, em casos extremos, prisão civil. É um instrumento de pressão muito mais eficaz do que os equivalentes disponíveis no Brasil.

Suspensão do processo

Se a sentença brasileira ainda estiver sujeita a recurso pendente, o devedor pode pedir a suspensão do processo de reconhecimento nos EUA até o trânsito em julgado no Brasil. Por isso, é recomendável aguardar o trânsito em julgado antes de iniciar o procedimento nos EUA.

Advogado local nos EUA

A execução nos EUA requer obrigatoriamente a atuação de um advogado admitido no estado competente. O D&Q Lawyers coordena com advogados norte-americanos parceiros para conduzir o processo de homologação e execução de ponta a ponta.

Fabiano Deffenti, Sócio Fundador
Fabiano Deffenti Sócio Fundador

A combinação certa para executar sua sentença nos EUA

Fabiano Deffenti é o único advogado no mundo habilitado a exercer a advocacia no Brasil, na Austrália, na Nova Zelândia e em Nova Iorque, o que lhe permite assessorar credores brasileiros com uma compreensão profunda de ambos os sistemas jurídicos envolvidos no processo de homologação e execução de sentenças.

Ao longo de sua carreira, Fabiano atuou como expert witness em direito brasileiro em tribunais nos Estados Unidos, na Inglaterra e na Austrália, incluindo casos de grande repercussão como as class actions contra Sadia, Aracruz e Petrobras nos EUA. Essa experiência direta no sistema norte-americano é um diferencial concreto no assessoramento de credores brasileiros.

  • Brasil - Advogado
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Entre em contato e um dos nossos advogados retornará para avaliar o seu caso. O sucesso do processo depende de uma análise cuidadosa das circunstâncias específicas — a forma da citação, o estado onde os bens se encontram e a natureza da condenação são fatores que precisam ser analisados antes de qualquer decisão.

Esta página tem caráter informativo e não constitui assessoria jurídica. As normas variam por estado; consulte-nos para uma avaliação do seu caso específico.

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